Dermatoses Psicossomáticas: quando a mente impacta a pele
- Marcello de Alencar Silva
- 16 de out. de 2024
- 5 min de leitura
Atualizado: 13 de out. de 2025
Autor: Dr. Marcello Alencar

A pele, o maior órgão do corpo humano, vai muito além de suas funções fisiológicas. Na psicossomática, entendemos que ela não é apenas um escudo protetor contra ameaças externas, mas também uma tela sensível que reflete o que está acontecendo no nosso mundo interno. Muitas vezes, emoções, conflitos e traumas se manifestam na pele de maneiras que as palavras não conseguem expressar. Como McDougall (1989) sugeria, o corpo pode se tornar uma linguagem somática, onde tensões emocionais não resolvidas encontram sua expressão. Estudos recentes reforçam esse entendimento, revelando que a pele é um reflexo direto de nossas emoções internas, particularmente em situações de estresse, ansiedade e trauma (PATEL; HAINSWORTH, 2021).
Pele, cérebro e trauma: uma conexão somática
Para compreender a fundo essa ligação entre pele e mente, é preciso observar o desenvolvimento embrionário. Tanto a pele quanto o sistema nervoso se originam da ectoderme, a camada mais externa do embrião. Essa origem comum estabelece uma ligação biológica e emocional que faz com que nossas emoções e experiências de vida influenciem diretamente nossa pele. Dalgalarrondo (2000) reforça que o eixo neuroendócrino é responsável por essa interação, na qual estados emocionais ativam respostas físicas, muitas vezes através da pele.
Um exemplo claro dessa conexão é o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), ativado durante respostas ao estresse. Basavaraj et al. (2020) apontam que a ativação desse eixo intensifica condições dermatológicas, como psoríase, dermatite atópica e acne, em situações de estresse emocional. Aqui, a Microfisioterapia surge como uma ferramenta valiosa para interpretar e tratar esses sintomas, uma vez que busca identificar a origem dos traumas que se manifestam no corpo.
A Microfisioterapia e a leitura dos traumas
A Microfisioterapia é uma técnica terapêutica manual que visa acessar as memórias celulares de traumas físicos e emocionais vividos pelo corpo ao longo da vida. Quando pensamos na pele como esse “órgão de linguagem”, a Microfisioterapia faz a ponte entre a manifestação física do sintoma e sua causa emocional ou traumática. Ela parte do princípio de que as agressões físicas e emocionais que o corpo não consegue eliminar ficam registradas em suas células, gerando sintomas, como as dermatoses psicossomáticas. Assim, ao atuar nessas memórias celulares, a Microfisioterapia permite liberar o trauma original, promovendo um alívio duradouro dos sintomas.
Por exemplo, no caso de uma dermatite psicossomática, a abordagem da Microfisioterapia buscaria identificar em que momento da vida o corpo sofreu uma agressão emocional que, ao não ser processada, foi armazenada nas células da pele, gerando um quadro inflamatório recorrente. Segundo Mourgeon et al. (2019), a técnica é capaz de localizar microlesões no corpo, associadas a traumas emocionais passados, ajudando a pele a “lembrar” sua função saudável e a cessar a resposta excessiva ao estresse.
Psicodermatologia e Microfisioterapia: uma visão integrativa
Com a psicodermatologia, entendemos como as emoções influenciam a saúde da pele, e essa área explora a interação mente-corpo nas dermatoses psicossomáticas. A Microfisioterapia complementa essa visão ao tratar os traumas profundos que se manifestam fisicamente. Enquanto as condições autoinduzidas, como a dermatite artefata ou a tricotilomania (GUILLET et al., 1992), são respostas diretas ao sofrimento emocional, dermatoses como vitiligo, alopecia ou psoríase são manifestações mais sutis, mas igualmente ligadas a estados emocionais. Kim et al. (2021) apontam que a psicoterapia, associada a terapias manuais como a Microfisioterapia, pode ser extremamente eficaz para interromper o ciclo de sofrimento físico e emocional nesses pacientes.
A Microfisioterapia atua de forma a restaurar a homeostase do corpo, permitindo que o organismo reconheça o trauma não resolvido e, por meio de toques sutis, reative os processos de cura natural. Esse tipo de abordagem é essencial para condições dermatológicas com fundo emocional, pois permite que o corpo “libere” o trauma que gerou o desequilíbrio. Nesse sentido, o tratamento vai muito além da pele, atuando diretamente nas raízes psicossomáticas das doenças.
A pele como interface de identidade e relações
Além de refletir as emoções internas, a pele é o limite físico entre o eu e o mundo externo, desempenhando um papel crucial na autoimagem e na formação da identidade. Didier Anzieu (1989) introduziu o conceito de “Eu-pele”, que une as dimensões psíquica e somática da identidade. A pele é a primeira forma de contato com o mundo, e experiências emocionais precoces, como as vividas na infância, deixam marcas profundas, tanto na mente quanto no corpo.
Winnicott (1956) destacou que o vínculo entre mãe e bebê é fundamental para o desenvolvimento emocional saudável. Estudos recentes, como o de Leavitt et al. (2019), mostram que experiências adversas na infância, como negligência ou trauma, podem aumentar a vulnerabilidade a condições psicossomáticas, incluindo doenças de pele. A Microfisioterapia, nesse contexto, atua diretamente sobre essas memórias precoces, ajudando o corpo a processar traumas antigos que ainda influenciam a saúde física e emocional.
O impacto psicossocial e a intervenção precoce
Pacientes com doenças dermatológicas frequentemente sofrem não apenas com os sintomas físicos, mas também com o impacto psicossocial da condição. O estigma social, a vergonha e a baixa autoestima podem agravar o quadro dermatológico, criando um ciclo de sofrimento e piora do quadro clínico (FORTES et al., 2021). Nesses casos, uma abordagem integrativa que combine a psicoterapia, a psicodermatologia e a Microfisioterapia oferece um caminho mais eficaz de tratamento. Ao acessar as memórias celulares e liberar traumas, a Microfisioterapia contribui para a melhora tanto do estado físico quanto emocional do paciente.
É importante destacar que o tratamento precoce das dermatoses psicossomáticas pode prevenir que esses pacientes entrem em um ciclo de retraumatização, comum em pessoas que sofrem discriminação e isolamento social devido às condições dermatológicas. Patel e Hainsworth (2021) defendem que a combinação de tratamento psicológico e fisioterapêutico não apenas melhora os sintomas, mas também ajuda o paciente a lidar de forma mais saudável com as raízes emocionais de sua condição.
Microfisioterapia e psicossomática: um caminho para a cura
Em resumo, a pele é muito mais do que um órgão de proteção. Ela é um espelho das emoções e experiências do indivíduo, refletindo traumas, ansiedades e conflitos internos. A Microfisioterapia, ao lado da psicodermatologia e da psicoterapia, oferece uma abordagem integrativa para tratar não apenas os sintomas dermatológicos, mas também suas causas emocionais. A liberação das memórias celulares é fundamental para ajudar o paciente a recuperar o equilíbrio emocional e físico, promovendo uma cura mais completa e duradoura.
A pele, como limite entre o eu e o mundo, guarda histórias profundas. E através de abordagens somáticas como a Microfisioterapia, é possível acessar essas histórias e reescrevê-las, permitindo que o paciente experimente um alívio verdadeiro, tanto na pele quanto no coração.
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Referências
ANZIEU, Didier. O Eu-pele. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1989.
BASAVARAJ, K. H.; NAVYA, M. A.; ARUN, C. Stress and quality of life in psoriasis: an update. Int J Dermatol, v. 59, p. 398-407, 2020.
DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2000.
FORTES, Cristiane P.; FARIA, Fabíola R.; CAMPOS, Natália B. Psoríase e impacto psicossocial: revisão sistemática e implicações para a prática clínica. Jornal Brasileiro de Dermatologia, v. 96, n. 2, p. 157-166, 2021.
GUILLET, G.; GUILLET, M. H.; BROUSSE, G. Psychodermatoses: études et réflexions sur une approche psychologique des dermatoses. 2. ed. Paris: Flammarion, 1992.
KIM, Jeongjin; PARK, Hyejin; KIM, Sungsoo. Psychosomatic Skin Diseases: A Review Focusing on the Psychodermatology Field. Ann Dermatol, v. 33, n. 5, p. 405-416, 2021.
LEAVITT, Logan A.; SCHERER, Janna N.; FALK, Carolyn. Childhood Emotional Abuse and its Relationship with Adult Psoriasis: Psychosomatic Considerations. Clinical Psychology & Psychotherapy, v. 26, n. 6, p. 654-662, 2019.
MCDOUGALL, Joyce. Teatros do corpo: uma teoria psicanalítica da doença psicossomática. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
MOURGEON, Anne; GUILLEMETTE, Robert; COURCHESNE, Simon. Microphysiotherapy: a manual therapy for the treatment of emotional and physical trauma. Journal of Bodywork and Movement Therapies, v. 23, n. 3, p. 507-514, 2019.
PATEL, Meenal S.; HAINSWORTH, Kelly R. Emotional Regulation and its Impact on Dermatologic Conditions: The Role of Psychosomatic Processes in Skin Health. Journal of Psychosomatic Research, v. 147, p. 110530, 2021.
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Dr. Marcello Alencar
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