Epigenética e Saúde Mental: Como Traumas Podem Ser Passados para Gerações Futuras
- Marcello de Alencar Silva
- 21 de out. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 13 de out. de 2025
Autor: Dr. Marcello Alencar

A ciência moderna tem demonstrado que os traumas não afetam apenas o indivíduo diretamente, mas podem deixar marcas biológicas que atravessam gerações. Esse fenômeno, conhecido como herança intergeracional de traumas, está fortemente associado a mecanismos epigenéticos, especialmente a metilação do DNA, que regula a expressão de genes sem alterar a sequência genética em si (MANSUY, 2023).
O Mecanismo Epigenético
A metilação do DNA ocorre quando grupos metila são adicionados a uma molécula de DNA, alterando a maneira como os genes são ativados ou desativados. Estudos têm mostrado que experiências traumáticas, como abusos ou exposição a conflitos violentos, podem levar a alterações na metilação de genes relacionados ao eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA), crucial para a resposta ao estresse. Um exemplo é o gene NR3C1, que codifica o receptor de glicocorticoide, envolvido na regulação da resposta ao estresse. Alterações na metilação desse gene foram observadas em filhos de sobreviventes de traumas, como os que sofreram abuso infantil ou guerras (WILKER, et al., 2023).
Traumas e a Transmissão Intergeracional
Estudos em humanos e animais mostram que o estresse pode ser transmitido de uma geração para outra por meio de mudanças epigenéticas. Pesquisas com descendentes de sobreviventes do Holocausto, por exemplo, demonstraram alterações na metilação de genes associados ao estresse, como o FKBP5, um co-chaperone de receptores de glicocorticoides, que também se mostrou hipermetilado em estudos com ratos expostos a estressores predatórios (BHATTACHARYA, et al., 2019).
Esse achado sugere que traumas severos podem impactar a regulação de genes por várias gerações, potencialmente predispondo descendentes a condições como transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) (LØKHAMMER, et al., 2022).
Além dos genes envolvidos no eixo HPA, outro gene importante é o BDNF, relacionado à plasticidade neural e memória. A hipermetilação do BDNF foi associada a déficits cognitivos específicos da região do hipocampo, sugerindo que traumas podem perpetuar vulnerabilidades neurológicas em gerações futuras (BHATTACHARYA, et al, 2019).
Relevância Clínica e Terapêutica
Para a microfisioterapia e outras abordagens psicossomáticas, a compreensão desses mecanismos abre novos caminhos terapêuticos. A identificação de traumas herdados através da metilação do DNA pode ajudar no desenvolvimento de tratamentos mais personalizados, visando desativar ou modular essas alterações epigenéticas. Esse conhecimento oferece uma perspectiva integrativa, onde mente, corpo e genética interagem profundamente na formação de padrões de adoecimento e cura.
Considerações Finais
O campo da epigenética está trazendo avanços significativos na compreensão de como os traumas podem ser "herdados" biologicamente. Isso ressalta a importância de uma abordagem multidisciplinar na terapêutica, considerando tanto os aspectos emocionais quanto os biológicos das experiências traumáticas. Investigações futuras devem aprofundar a compreensão sobre como esses mecanismos epigenéticos podem ser revertidos ou modulados através de intervenções clínicas.
Referências
LØKHAMMER, S. et al. An epigenetic association analysis of childhood trauma in psychosis reveals possible overlap with methylation changes associated with PTSD. Translational Psychiatry, 2022. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41398-022-01936-8.pdf.
WILKER, S. et al. Epigenetics of traumatic stress: The association of NR3C1 methylation and posttraumatic stress disorder symptom changes in response to narrative exposure therapy. Nature Translational Psychiatry, v. 13, n. 14, 2023. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41398-023-02316-6. Acesso em: 16 out. 2024.
BHATTACHARYA, S. et al. Stress Across Generations: DNA Methylation as a Potential Mechanism Underlying Intergenerational Effects of Stress in Both Post-traumatic Stress Disorder and Pre-clinical Predator Stress Rodent Models. Frontiers in Genetics. V.13, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.3389/fnbeh.2019.00113. Acesso em: 16 out. 2024.
MANSUY, I. How Trauma’s Effects Can Pass From Generation to Generation. Nature Carees PODCAST, 2023. Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-023-01433-y. Acesso em: 16 out. 2024.
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Dr. Marcello Alencar
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